Em 1874 começou a imigração italiana para o Brasil e com ela a história que influenciou milhões de descendentes de italianos que nasceram e cresceram no Brasil, mas sempre tiveram contato com a Itália.
Durante muitos anos, difundiu-se a ideia de que os italianos deixaram seu país para fugir das guerras. No entanto, os registros mostram uma realidade diferente.
Em suma, a imigração ocorreu em um período de paz motivada principalmente pela fome, pela crise econômica e pelas dificuldades enfrentadas pela população italiana no final do século XIX.
Essa trajetória, entretanto, marcou a formação da sociedade brasileira e explica por que milhões de brasileiros possuem hoje sobrenomes, tradições e costumes herdados da Itália.
Entender como os italianos chegaram ao Brasil é também compreender um dos capítulos mais importantes da história da imigração italiana.
Como os italianos chegaram ao Brasil
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, porém, os italianos não emigraram por causa das guerras. Na época de conflitos era proibido por lei deixar a Itália.
A primeira embarcação oficial de colonos italianos, o navio Sofia, chegou ao porto de Vitória, no Estado do Espírito Santo, em 17 de fevereiro de 1874, em um período de paz.
Entre 1870 e 1920, mais de 1,2 milhão de italianos desembarcaram no Brasil em busca de melhores condições de vida.

Como consequência, esse movimento migratório transformou a história dos dois países e deu origem a uma das maiores comunidades de descendentes italianos do mundo, que hoje ultrapassa 30 milhões de pessoas.
Os fatores que levaram milhares de famílias italianas a atravessar o oceano foram econômicos e sociais. A população enfrentava a fome, a disseminação da pelagra — doença associada à má alimentação.
Também os impactos da Tassa sul macinato, imposto que atingia os agricultores criado em 1868, e a crise agrária iniciada em 1880.
Portanto, essas dificuldades fizeram com que muitas famílias enxergassem no Brasil uma oportunidade para recomeçar, para melhorar o próprio futuro, um país de esperança e sonhos.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o Brasil buscava trabalhadores para as plantações de café. Após a abolição da escravidão pela Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, o país passou a necessitar de novos trabalhadores para as lavouras.
A viagem da Itália ao Brasil
Depois da chegada do navio Sofia, o fluxo migratório tornou-se uma grande operação de transporte de trabalhadores. Os navios a vapor partiam do porto de Gênova e realizavam a travessia até o porto de Santos em 22 dias.
Essa viagem marcou o início de uma nova vida para milhares de italianos que deixavam sua terra natal em busca de trabalho e melhores perspectivas. Muitos deles deixaram as famílias e seria difícil revê-las.
Ao desembarcarem em Santos, os imigrantes seguiam de trem até a capital paulista. Desta forma, o destino era a Hospedaria dos Imigrantes, localizada no bairro do Brás e inaugurada em outubro de 1887. Realizados exames médicos, assinavam contratos de trabalho no sistema de colonato.
Entre 1887 e 1902, exatamente 703.812 italianos passaram pela Hospedaria antes de seguirem para as fazendas de café, substituindo a mão de obra escravizada após a Lei Áurea.
A proibição da língua italiana no Brasil
A história da imigração italiana também foi marcada por um período difícil. Em 1938, durante a Campanha de Nacionalização do Governo Getúlio Vargas, o uso da língua italiana foi proibido nas escolas e em espaços públicos brasileiros.
Muitas famílias, portanto, deixaram de falar italiano para proteger os filhos e evitar punições, permanecendo em silêncio durante décadas. Acontecia que muitas pessoas ofendiam italianos por falar uma língua que a população não entendia. Isto provocava muita vergonha e as famílias preferiam não passar essa imagem para os próprios descendentes.

Com o passar dos anos, a interrupção da transmissão natural do idioma entre gerações deixou marcas profundas em inúmeras famílias descendentes de italianos. Dessa forma, muitos recordam os avós falando uma língua parecida com o italiano, porém nunca puderam aprender ou utilizar esse idioma.
Estudar italiano atualmente, portanto, representa muito mais do que aprender um novo idioma. Para muitos descendentes, significa resgatar uma herança cultural construída com muito trabalho desde a chegada dos primeiros imigrantes ao Brasil.
Conhecer essa trajetória, em suma, ajuda a compreender as razões que trouxeram milhares de famílias italianas ao país e a importância da preservação de sua cultura para manter viva a memória daqueles que construíram novas vidas em solo brasileiro.

