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Você é mais italiano do que imagina e eu vou provar

O poder transformador da identidade e da cultura: reflexões de minha jornada intercultural

Numa era de globalização acelerada, em que as fronteiras entre nações e sociedades se desvanecem, as histórias da migração, adaptação e descoberta de identidade e cultura adquirem uma importância singular. Compartilho com vocês minha experiência, não apenas pelos desafios que enfrentei como migrante, mas pela complexidade e beleza inerentes à construção de identidades em contextos interculturais.

A interculturalidade se caracteriza por ser um diálogo entre iguais, ou seja, duas culturas fazem trocas e isso é um processo e uma relação contínua. Este conceito me parece aplicável à realidade dos imigrantes italianos no Brasil, pois a relação entre a cultura italiana e a realidade brasileira se construiu nessa troca.

Muitos de vocês vivenciaram esse processo em casa, talvez sem ter uma clara noção. Para vocês sempre foi normal respeitar aquela tradição, cozinhar aquela comida, reunir a família a volta da mesa porque os trisavós, bisavós ou avós de vocês transmitiram isso. Portanto, a identidade e a cultura italiana fazem parte do cotidiano de vocês e estão interligadas com o contexto no qual vivem.

Os desafios da migração e a busca pela cidadania

Como alguém que escolheu migrar para o Brasil, gosto de refletir sobre os obstáculos, aprendizados e, principalmente, sobre o conceito de identidade e cultura. Minha trajetória é um convite à reflexão pessoal e coletiva, instigando-nos a repensar nossas ideias preconcebidas sobre nacionalidade e pertença.

Minha história começa com a chegada ao Brasil, um caminho permeado por barreiras burocráticas e desafios de adaptação, uma realidade que muitos de vocês podem entender ou até compartilhar. Entre os relatos que entrelaçam minha jornada está o de Amélia, uma das minhas primeiras clientes aqui, cuja busca pelo reconhecimento de sua cidadania italiana ressoa com as experiências de tantos outros que anseiam por reconectar-se com suas raízes e heranças culturais.

O empoderamento através da história familiar

Ressaltar o poder de nossas histórias familiares na construção da nossa identidade, é um fator importante e o que de poderoso a Amélia me transmitiu é a descoberta e reconexão com sua herança italiana. Isso é, um lembrete de que nossas identidades são profundamente moldadas pelas narrativas, lutas e conquistas de nossos antepassados.

A história da Amélia é algo que, mais tarde, encontrei em muitas outras pessoas com as quais me relacionei. Várias vezes falei para a Amélia que era italiana e que não era brasileira coisa nenhuma. E eu vi que ela dava risada cada vez que afirmava isso. Eu pensei: “Por que ela tá dando risada?” Eu era muito séria, estava falando a verdade, eu estava falando sinceramente. Eu não enxergava ela como brasileira. E aí eu falei mais seriamente para ela, você não é brasileira. E ela ficou brava comigo e me disse: “Giulia, eu sou. Eu nasci no Brasil. Minha mãe nasceu no Brasil e meu pai também.”

Mas ao meu olhar, ela era muito italiana. Então, comecei a pensar o que é ser brasileiro e o que é ser italiano e cheguei a conclusão que a questão de nacionalidade e cidadania é um conceito abstrato. É só conceito social que é transmitido de formas diferentes, dependendo do país onde a gente mora.

Identidade, adaptação e o espaço entre culturas

Nessa troca de histórias, refletir sobre a adaptação cultural e sobre como construímos nossa identidade num novo país é fundamental. A identidade italiana é intricada e até para mim, voltar à Itália se tornou um processo de reajuste. O sentimento de pertencer a duas culturas, sem estar completamente ancorado em nenhuma, é uma realidade comum a muitos migrantes.

Ao interagir com brasileiros e italianos, percebo como as diferenças culturais podem ser fontes tanto de mal-entendidos quanto de aprendizado e ampliação de perspectivas. É importante ver a interculturalidade não como barreira, mas como uma oportunidade para um melhor autoconhecimento e apreciação da diversidade.

Identidade e cultura em fluxo

A história que contei e a minha história são um lembrete do dinamismo da identidade, constantemente moldada por nossas experiências, interações e pelas histórias que escolhemos valorizar. Seja na busca por cidadania, no desejo de conectar-se com nossas raízes culturais ou na vivência entre culturas, nossa jornada de identidade é enriquecida pelas pessoas que encontramos, pelas histórias que compartilhamos e pelas culturas que experienciamos.

Ao compartilhar minhas reflexões, convido todos a pensar sobre suas próprias jornadas, desafiando-nos a olhar além das fronteiras físicas e culturais, reconhecendo o valor da diversidade e da empatia na construção de um mundo mais inclusivo e compreensível.

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