Língua proibida: falar italiano era ilegal no Brasil

Dia do Imigrante Italiano celebra a memória dos antepassados 

O mês de fevereiro é um momento de reflexão. Em 21 de fevereiro celebra-se o Dia Nacional do Imigrante Italiano no Brasil, momento de lembrar os desafios e contribuições dos italianos que chegaram ao país, incluindo as dificuldades enfrentadas no século XX, inclusive, até mesmo a proibição do uso da língua italiana em espaços públicos. A data tornou-se a Lei Federal nº 11.687, de 2 de junho de 2008. 

A imigração italiana no Brasil começou oficialmente no dia 3 de janeiro de 1874, quando o navio La Sofia, sob o comando de Pietro Tabacchi, partiu do porto de Gênova com centenas de imigrantes a bordo. No dia 21 de fevereiro de 1874, 386 imigrantes provenientes das regiões do Trentino e do Vêneto desembarcaram na cidade de Vitória, no Espírito Santo, marcando o início de uma forte presença italiana no país.

Proibição e repressão 

Entretanto, o governo de Getúlio Vargas (1938-1945) impôs um dos períodos mais críticos para os imigrantes italianos no Brasil. Nesse intervalo, o Estado adotou uma política de nacionalização e proibiu o uso de línguas estrangeiras em escolas e instituições públicas.

O governo incluiu o italiano entre os idiomas proibidos, e quem insistisse em falá-lo poderia sofrer sérias consequências. Embora a medida buscasse promover a unificação cultural do país, ela provocou uma grande perda para a preservação das tradições italianas e da própria língua falada pelos imigrantes.

Jornal A Época, Caxias do Sul 29 de janeiro de 1942, mostra que falar italiano era ilegal. O edital foi assinado pelo
Delegado de Polícia Adão Massena Vieira (Imagem: Comunità Italiana do Espírito Santo)

Segundo o Decreto-Lei nº 1.545, de 25 de agosto de 1939, a “Campanha de Nacionalização” durante o Estado Novo, sob o governo de Vargas, tinha como objetivo a integração entre os brasileiros sem a influência dos estrangeiros – mas, esses chegavam cada vez mais ao Brasil diante do período pré-Segunda Guerra Mundial. 

Nenhum italiano ou estrangeiro – como alemães e japoneses – poderia ser professor no Brasil, tampouco ensinar o idioma de sua origem. Até mesmo em celebrações religiosas era proibido falar outro idioma. O ápice da perseguição foi em 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, em que aqueles que não falassem português eram presos. 

Herança e cooperação 

Atualmente, a sociedade brasileira celebra e valoriza a herança italiana. A cultura italiana permanece viva no país por meio da gastronomia, da música, da arte e, principalmente, das tradições familiares. O orgulho de ser italiano atravessa gerações e fronteiras, mantendo a história e o legado dos imigrantes sempre presentes na formação cultural do Brasil.

O Brasil abriga uma das maiores comunidades italianas do mundo. De acordo com os dados mais recentes do Consulado da Itália no Brasil, dos aproximadamente seis milhões e meio de cidadãos italianos que vivem no exterior, mais de 700 mil residem em território brasileiro — cerca de 11% do total.

Família de italianos que chegou ao Espírito Santo, no Brasil (Foto: Arquivo Público do Governo do Estado de Espírito Santo)

O número de italianos cadastrados na rede consular no Brasil ultrapassou 730 mil (em fevereiro de 2023), enquanto estima-se que 32 milhões de brasileiros com ascendência italiana estejam cadastrados. 

Em nível institucional, as relações bilaterais entre Brasil e Itália seguem as diretrizes do plano de ação “Parceria Estratégica”, assinado em 2010, e as orientações estabelecidas pelo Conselho de Cooperação Itália-Brasil, que se reúne para examinar os progressos e os desafios da colaboração bilateral em diversos setores de atividade (relações políticas, econômicas e comerciais, projetos científicos e culturais, intercâmbios acadêmicos, cooperação industrial e defesa).

Aprendizado do idioma italiano 

A proibição do idioma italiano não durou por muito tempo, mas deixou como herança vários preconceitos. Por exemplo, quem não falava “brasileiro” era classificado como grosso. Não era raro para italianos serem chamados de ‘burros’ ou ‘cães’ por não saber falar português. Isto fez com que muitas famílias não transmitissem o idioma aos filhos ou netos. Havia uma vergonha grande em fazer isso.

Porém, em 2014 o talian, língua que é uma mistura entre dialetos do Norte e Nordeste da Itália (sobretudo do Vêneto) com o português, foi reconhecida como Referência Cultural Brasileira pelo Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e pelo Ministério da Cultura.

Hoje em dia existe também o dicionário de talian e a gramática, de autoria do Professor Darcy Luzzato. Existem vários projetos sobre esta língua desenvolvidos principalmente no Rio Grande do Sul. Um deles é o projeto Talian que entre os vários objetivos têm o resgate da história da imigração italiana, sua cultura e seu patrimônio linguístico. Aqui você pode conferir um material extra da Scuola Azzurra de italiano para principiantes.

Representação da chegada do La Sofia no Espírito Santo (Foto: Comunità Italiana do Espírito Santo)

Terra Nostra 

Falar sobre imigração italiana no Brasil faz lembrar da novela Terra Nostra, que foi um sucesso de audiência na TV Globo. Você, com certeza, conhece a história. Inclusive, a produção está sendo reprisada atualmente nas tardes da emissora. Confira a seguir a sinopse oficial da novela. 

A novela retrata a imigração italiana no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX e destaca sua importância na formação da sociedade brasileira por meio do romance entre os jovens italianos Matteo (Thiago Lacerda) e Giuliana (Ana Paula Arósio).

Em 1894, o navio Andrea I parte do porto de Gênova, na Itália, e atravessa o Oceano Atlântico com centenas de camponeses italianos a bordo. Eles deixam o país para fugir da crise econômica e tentar a sorte no Brasil, que naquele período buscava mão de obra para substituir o trabalho escravo nas plantações de café.

(Imagem: Acervo TV Globo)

Entre os imigrantes viaja o casal Julio (Gianfrancesco Guarnieri) e Ana (Bete Mendes), acompanhado da filha, Giuliana. Durante a travessia, Giuliana conhece Matteo, e os dois se apaixonam. No entanto, uma peste se espalha pelo navio. A doença mata os pais da jovem, e a tripulação lança os corpos ao mar para evitar maior contaminação. Diante da tragédia, Matteo e Giuliana passam a ter apenas um ao outro como referência.

Ao chegar ao Brasil, os dois decidem enfrentar juntos o futuro incerto, mas acabam se separando no desembarque e seguem destinos diferentes. Um imigrante bem-sucedido, Francesco Maglianno (Raul Cortez), grande amigo do pai de Giuliana, acolhe a jovem. Já Matteo consegue trabalho na colheita de café na fazenda do coronel Gumercindo Aranha (Antonio Fagundes).

Autoria: Benedito Ruy Barbosa | Colaboração: Edmara Barbosa e Edilene Barbosa | Direção: Jayme Monjardim, Carlos Magalhães e Marcelo Travesso | Direção-geral: Jayme Monjardim e Carlos Magalhães | Período de exibição: 20/09/1999 – 03/06/2000 | Horário: 20h | Nº de capítulos: 221

Leia mais:

A Magia da Metodologia

A busca pela fluência no italiano muitas vezes pode ser confundida com entretenimento porque este se sobrepõe à formação e ao estudo.

Ler mais >

A sua dose semanal de italiano

Cadastre-se para receber a minha newsletter semanal com artigos de blog, notícias, Momento Italiano e muito mais!

plugins premium WordPress